Barton (O Bardo)

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Mesmo um instrumento esquecido, ainda é capaz de produzir sons. Ora, pois mesmo uma corda enferrujada ainda vibra. Ora, pois o vento que escapa pelos lábios do flautista, sairá pela flauta como algo mais que uma rajada de ar. Ora… Se isto não é magia, então o que é?

Barton era um bardo, e os sons eram sua fonte de poder, de tal modo que, se desejasse, poderia ser invencível. Ora, pois qual o homem que não deseja possuir uma fonte infindável de poder? Talvez ele. Se tivesse hidromel, a companhia de seus amigos, e um instrumento em mãos, era o que lhe bastava para ser feliz. A vida é uma melodia, ele não cansava de dizer, e o Bardo é aquele que a toca!

Mas há beleza na tristeza, e ele sabia disso. Desde que as trevas lhe tiraram sua amada, nada mais fez sentido. O mundo tornou-se repleto de sons que ele não mais apreciava. Seus dedos já não queriam dedilhar as cordas, e seus lábios já não almejavam pelo corpo da flauta. Via a si mesmo como um alaúde quebrado, sem cordas, cujo único som capaz de produzir era o enfadonho e desafinado barulho da madeira caindo no chão, amplificando a queda.

Porém, para o artista, principalmente para o bardo, os aplausos do público podem servir como fonte de motivação. Ele não estava sozinho, nunca esteve, por mais que desejasse sumir do mundo, e viver na miséria das lembranças dos dias que antecederam aquela noite gelada, nas profundezas daquele lago escuro e temeroso. Ora, pois para o músico, os instrumentos são como amigos…

– Vamos lá. – ajeitou-se sobre o cavalo, mordiscou uma pera, verificou a bolsa de couro, para ver se levava tudo o que precisava. – Hora de sair dessa casa escura e vazia.

Lá dentro, apenas os móveis velhos, os cômodos frios, as velas apagadas. Numa pequena sala empoeirada, os instrumentos se amontoavam num canto. Velhos amigos, abandonados, deixados para trás, impedidos de servir ao propósito pelo qual foram criados. Pois aquele era o cenário do mundo, onde os instrumentos eram impedidos de prover o som, e os magos eram impedidos de gerar magia. A ausência do bardo realmente causou o caos.

Estava na hora do músico voltar a tocar a sua melodia.

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Dourado (Helene)

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O texto abaixo foi escrito para servir de material complementar ao desenvolvimento de uma das personagens. Já mostrei um pouco sobre Aldesfer no post anterior, hora de dar uma amostra de Helene.

(…)

Ser uma ladra era como ser presa e predador ao mesmo tempo, ainda mais depois de ter se envolvido com a guilda: um erro que ela desejou jamais ter cometido. John Silencioso nunca a deixaria viver. Mesmo que ele não fosse capaz de encontrá-la tão facilmente, o máximo que ela conseguiria seria alcançar um estado de sobrevivência que de maneira alguma poderia ser chamada de vida. Fugindo, cavalgando, se escondendo. A furtividade é um requisito básico para o ladino, mas aquele que vive nas sombras, um dia acaba por se tornar uma. E ela não queria terminar assim.
Galopou pelo labirinto verde, ziguezagueou por entre as árvores, atravessou os córregos. Tal qual uma cavaleira experiente, ou talvez melhor. Nenhum dos três ladrões conseguiu acompanhá-la. Escondia o dourado dos cabelos sob um capuz marrom, que na noite, parecia negro, e mantinha os punhais escondidos por baixo da manta, presos em uma cinta de couro com bainhas moldadas perfeitamente para comportar as lâminas. Um presente, uma das únicas coisas que ela possuía, e que não era fruto do roubo.

– Vamos ter de passar a noite aqui, amiga – ela disse para a égua, escondida atrás de uma grande rocha coberta por musgos.

Sabia que o animal não podia entender suas palavras, mas sentia-se tão solitária naquele mundo de fuga sem fim, que por vezes gostava de fingir que a égua era capaz de compreender o que ela dizia, e então começava a conversar com a companheira, dando tempo para que ela respondesse. As respostas nunca vinham, mas a ladra inventava uma em sua mente, continuava o diálogo, que na verdade, acabava por ser um monólogo.

– Afinal, ainda somos você e eu, não é mesmo? – ela continuou. – Uma dupla como nós não será encontrada por ladrõezinhos como aqueles, que sequer passaram da base da pirâmide. Se o maldito do John quiser nos encontrar, terá que enviar peças mais habilidosas; os peões não são páreos para nós.

Fez o que pôde para convencer a si mesma de que era durona. E na verdade era.

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Palavras de um Mago (Primeiro Post é Sempre Teste )

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O trecho que segue abaixo é parte do material de apoio que escrevi para auxiliar no desenvolvimento de meu livro que, se tudo der certo, espero poder publicar ainda no ano de 2015 (cruzando os dedos). Como o autor normalmente fala por meio de seus personagens, pode-se dizer que as palavras são tanto minhas quanto do Aldesfer, meu bom amigo criado no final do ano de 2011, fruto do meu apreço por pessoas idosas. Então, que venha a carta do Mago Vermelho.

(…)

DEVANEIOS AO FOGO

Onde há vida, haverá morte. Onde há felicidade, haverá tristeza. Onde há prazer, haverá dor. Onde há o bem, haverá o mal. Dualidade é uma das leis universais mais evidentes em nossas vidas.

Por mais que as leis dos homens possam ser quebradas, o mesmo não se aplica às leis do inexplicável, cujo decreto é implacável e irrevogável. E se há algo que rege o ciclo de acontecimentos onde a dualidade atua, este algo é o tempo.

O mundo foi palco de tantas eras que mesmo a história de todas as sociedades humanas somadas não significa mais que um quarto de um grão de areia em meio a outros incontáveis grãos contidos na ampulheta do tempo. Diferentes raças… Diferentes histórias… Algumas tão incríveis durante sua existência, outras tão miseravelmente irrelevantes para aqueles que vieram após. E em nenhuma outra era houve raça tão incontrolavelmente ambiciosa quanto o ser humano. O homem é sem dúvida a criatura mais faminta que já passou pelo mundo: seus olhos não se contentam em enxergar para sobreviver. São olhos que precisam de belas imagens. Contudo, ser belo também não basta, os olhos humanos precisam alimentar-se de algo novo e diferente todos os dias. Praias, montanhas, florestas, tudo precisa ser visto, e quando tudo não for mais novidade, ele encontrará um jeito de alimentar a visão com alguma outra coisa. Além dos olhos, os ouvidos também sentem fome. Fome de belas melodias e dos mais variados sons que o mundo e todas as outras criaturas que fazem parte dele podem oferecer. E quando todos os sons tiverem sido ouvidos, o homem encontrará uma forma de saciar esta vontade de alguma maneira ou de outra. E é claro que a palavra fome não pode deixar de ser aplicada para a busca por alimento. O homem come tudo o que vê, e mesmo quando está satisfeito, continua comendo. Come as plantas, árvores e seus frutos. Come outros animais, e em alguns casos até outros homens. Talvez, pelo menos neste aspecto o ser humano se pareça mais com os outros seres desta era. Enfim, se uma lista fosse feita com todas as necessidades humanas, poder-se-ia escrevê-las em papel e empilhar as folhas para que formassem um pilar que atravessaria o céu, caso não acabasse o papel e a tinta das penas antes, é claro.

Mas, por mais que toda a existência possa parecer insignificante perante a presença do tempo, não pode deixar de ser relevante para aqueles que vivem em seu tempo e acreditam que suas vidas possuem algum sentido maior do que eles possam compreender por completo. Ah, sim, essa é mais uma das necessidades humanas. O homem precisa de uma razão para viver. Talvez por isso suas histórias sejam tão interessantes. Diante de tantas vontades, não é de se estranhar que os humanos possuam tantas histórias para contar. Afinal, não é fácil viver todos os dias em busca de algo, e nunca sentir-se totalmente saciado.

Enfim, não penso que alguém irá um dia ler esta carta, mas precisava escrevê-la mesmo assim. Para finalizar os devaneios, escrevo abaixo as palavras daquele que um dia foi o mais entusiasmado, egoísta e talentoso músico que já conheci. Meu aprendiz, e amigo…

“A vida é uma melodia que pode ser triste ou feliz, dependendo de como você a toca… E como hoje acordei de bom humor, será uma melodia alegre, contanto que me prestigiem com uma peça de prata quando terminar a canção, ou ao menos me paguem uma bebida”.

Para ser justo, devo inserir também alguma memória de um outro grande amigo, afinal de contas éramos três, e odiaria que ele encontrasse esta carta e percebesse que não fiz nenhuma menção a ele. Até porquê, eu sempre impliquei com o sujeito, aproveitando do seu excesso de paciência, mas a verdade é que este é o típico caso onde o aprendiz é mais sábio que o mestre… Que constrangimento, espero que ele nunca leia esta carta…

“Apenas uma coisa é mais poderosa que a vontade de um deus: a convicção de um homem.”

Viu? Não disse que ele fala como um sábio? Do tipo que fala pouco, mas diz muito. Desgraçado…

Eu poderia citar muitas outras coisas que fazem sentido pelo menos para mim, mas já é hora de terminar esta carta… Sou péssimo com encerramentos, e também não costumo ser formal, então deixo aqui nada mais que um singelo até logo.

Aldesfer Duragan

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